POR UM NATAL MAIS SUSTENTÁVEL

#ENTREVISTA
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Cada vez mais as famílias preocupam-se com a sustentabilidade e com o ambiente. No Natal, evitar o desperdício pode ser um verdadeiro desafio. Conversámos com a JOANA GUERRA TADEU, considerada uma das principais referências da sustentabilidade em Portugal, para perceber como é que todos podemos viver um Natal mais amigo do ambiente, sem romper com as tradições familiares que nos fazem felizes.
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Esta é a Joana Guerra Tadeu. É activista a tempo inteiro: todo o trabalho que desenvolve como consultora de estratégia e comunicação só é feito para projectos com objectivos de desenvolvimento sustentável. Mostra como nos podemos colocar ao serviço de uma causa, enquanto melhoramos a nossa qualidade de vida. Diz ser uma ambientalista imperfeita e hoje partilha connosco como é importante para as pessoas e para o planeta vivermos um Natal mais sustentável.

Não precisamos de meia dúzia de ambientalistas perfeitos, precisamos de milhões de ambientalistas imperfeitos

Porquê ambientalista imperfeita?
Acho que, como em todas as mudanças de hábitos, quando nós tentamos fazer muito de uma vez vamos falhar rapidamente se quisermos ser perfeitos. Há uma frase que diz que “o dia mais importante na criação de um novo hábito é o dia a seguir ao primeiro dia em que falhamos”. Quando decidimos “agora vou ser zero waste“, e num dia fazemos lixo, no dia a seguir fazemos lixo outra vez, depois fazemos lixo outra vez e desistimos. Acho que se nós começarmos a tentar ter um estilo de vida mais alinhado com os valores da sustentabilidade e começamos logo a tentar eliminar todo o lixo, todo o consumo, todo o plástico, a pensar na perfeição, muito rapidamente vamos achar difícil e vamos desistir.

Qual é a mudança que realmente importa?
O precisamos é de mudar a maneira como nós pensamos o consumo e o lixo, para que o sistema mude. O problema não sou eu, nem tu, nem quem nos está a ler… é o sistema económico, político e social em que todos nos inserimos e que está desenhado de uma maneira em que se nós não trabalharmos para produzirmos, não ganhamos dinheiro… se não comprarmos coisas com o dinheiro que ganhamos, não se produz… se não se produz não há trabalho… e isto é o que precisa de mudar! A dependência do consumo precisa de mudar porque está a explorar pessoas, territórios e a criar uma série de problemas sociais, ambientais e económicos.

O que podemos fazer para mudar isso?
Desacelerar, consumir menos e desenvolver a nossa percepção de valor. Precisamos de desacelerar, para ter tempo para pensar. E este ano serviu muito para isso! Todos fomos obrigados a desacelerar e também por isso há tantas pessoas a despertar para estas questões. Temos mesmo de pensar mais sobre isto: sobre o impacto de tudo o que fazemos e das decisões que tomamos. Depois precisamos de consumir menos – sempre que consumimos estamos a pedir novos recursos e mais trabalho. E nós não valorizamos esse trabalho nem esses recursos. Também temos de mudar a nossa percepção de valor, perceber como funcionam os nossos valores éticos e morais. Todos partilhamos o mesmo tipo de valores – ninguém quer fazer mal a ninguém, mas depois o sistema está desenhado de uma maneira que nos obriga a preterir esses valores. Escolhemos o mais fácil, o mais cómodo e o mais rápido. Muitas vezes isso faz com que nós falhemos no cumprimento dos nossos valores e nem nos apercebemos… Ou apercebemos mas acabamos por fazer essa escolha porque é mais barata, mais rápida. Nós usamos os recursos que o planeta nos dá como se fossem infinitos. E nós sabemos que não são! Temos de mudar a percepção do valor dos recursos, do trabalho e, em último, do lixo: “o fim do lixo tem de ser o fim do lixo”.

A solução passa por acabarmos com o desperdício?
É mesmo importante que se deixe de olhar para o lixo como lixo. O lixo não pode ir para o lixo. Tem de ter um futuro: tem de ser compostado, reciclado, reutilizado, transformado. O lixo é um recurso e temos de mudar essa percepção de valor.  Mas isto tudo de uma maneira muito imperfeita porque vamos ter dias em que não temos tempo nem disponibilidade para pensar na nossa percepção de valor. Muita gente não vai conseguir desacelerar porque não tem acesso a esse tipo de privilégio… A única coisa que todos conseguimos fazer com alguma facilidade, tirando quem vive em pobreza, é consumir menos. 

Como é que podemos consumir menos no Natal? 
Não é a quinze dias do Natal que se muda a mentalidade de uma família inteira.  Não podemos estar à espera que os nossos amigos e família respondam com a perfeição… Temos de dar espaço e tempo. Há pequenas coisas que podemos fazer, sem sequer ser preciso uma conversa muito profunda sobre o assunto. As conversas profundas são essenciais mas ao longo do ano e sem isso não há aqui grande questão. É fundamental. 

E no dia de Natal? 
Podemos aproveitar as prendas de Natal também para educar, por exemplo, oferecendo alternativas ecológicas, sejam brinquedos para as crianças, seja cosmética natural, seja escova de dentes de bambu ou lâmina de barbear à antiga… oferecer produtos de limpeza ou cosméticos feitos por nós. Aproveitar o presente como uma ferramenta de educação. E resulta bem porque se oferecermos bons presentes, se for bonito, cheirar bem, se estiver bem embrulhado, se for muito útil ou for até melhor que o que a pessoa usava antes, se tiver um sabor ou cheiro melhor, as pessoas ficam interessadas e depois vão perguntar onde podem arranjar mais e vão acabar por integrar aquela mudança na sua vida.

E quando se tem crianças? 
Uma coisa que funciona muito bem é a carta ao Pai Natal. Podem aproveitar a carta ao Pai Natal para discutir aqui alguns assuntos com as crianças, dar algumas ideias, dizer claramente o que é que não se quer e o que é que não se precisa… e outra coisa importante é nós de facto darmos alternativas às pessoas. As pessoas não estão prontas para não dar nada, portanto, é importante nós darmos alternativas ao presente típico. Ao par de meias, ou… seja o que for que a pessoa costuma dar, temos de dar uma alternativa ou várias alternativas porque senão as pessoas ficam perdidas e acabam por fazer aquilo que é confortável para elas, que é dar seja o que for e aí vão falhar. 

“Quando há uma tradição que nos incomoda por causa do impacto ambiental ou social que tem, é importante arranjarmos uma alternativa para essa tradição que continue a replicar a alegria, o sentimento principal, o momento em família…”

Faz sentido continuar com tradições de consumo pouco sustentáveis?
É a tradição que nos obriga a dar presentes no dia da mãe, no dia de Natal, no dia do pai, no dia do aniversário… Quando há uma tradição que nos incomoda por causa do impacto ambiental ou social que tem, é importante arranjarmos uma alternativa para essa tradição que continue a replicar a alegria, o sentimento principal, o momento em família… Substituí-la por algo que tenha menos impacto negativo. Outra coisa importante é não darmos presentes a pessoas de quem nós não gostamos, ou que não gostam de nós. Porque não adianta nada… Também é preciso sermos honestos quando não gostamos das coisas. Se calhar não no dia de Natal, mas ao longo do ano ir tocando no assunto. Dizer “olha, aquele presente que deste à minha filha que tinha pilhas, eu não vou por mais pilhas e vou dar à escola porque nós não queremos coisas com pilhas porque as pilhas fazem mal ao ambiente e gastam energia”. As pessoas vão perceber que não vale a pena oferecer nada com pilhas. Com o tempo, isto vai entrando.

© Joana Guerra Tadeu
© Joana Guerra Tadeu
© Joana Guerra Tadeu

Que pequenos gestos podemos fazer para minimizar o impacto?
Há um gesto muito pequeno que as pessoas podem fazer: usar luzes LED e poupar 80% de energia. Outro é não colocar as coisas no lixo no dia 25, que este ano calha uma sexta-feira e não vai haver recolha até segunda-feira. Se todos fizermos isso, as coisas vão ficar a céu aberto durante três dias e isso vai causar lixo que vai sair do sítio, vai espalhar lixo na cidade e vai para as sarjetas – pior ainda se chover, vai entupir esgotos, pode causar problemas em casa das pessoas, inundações, pode ir parar aos rios e ao mar… é um gesto muito simples: aguentar o lixo do Natal até segunda-feira! 

Como reduzir o desperdício de papel de embrulho?
O papel de embrulho comum nem sequer é reciclável… Podemos começar por fazer menos lixo e reutilizar papel de embrulho de outros anos. Mesmo já amachucado pode ser passado a ferro, se tiverem ferro. Mas até diria que uma coisa que se pode fazer é amachucar ainda mais e fazer disso um statement visual que até pode ficar muito engraçado, se o papel for liso, por exemplo. Amachucar o máximo e ficar com um padrão. Assumir o embrulho assim! Depois outra coisa que se pode fazer é aproveitar sacos de papelão, seja de que marca for, cortar, virar do avesso e usar a parte de dentro do saco que é lisa como parte de fora do embrulho. Outra coisa ainda que se pode reutilizar é jornal, sobretudo se for a preto e branco. Podem pôr um laço natural como um raminho de pinheiro, eucalipto, alfazema, rosmaninho… um raminho, como laçarote fica espectacular! Em vez da fita-cola podem usar só o próprio papel com dobras ou um fio à volta – um fio de cânhamo, linho ou algodão. Uma coisa que se vai decompor rapidamente ou que a pessoa a quem vão oferecer pode reutilizar. Podem também carimbar os sacos de papel, ou usar papéis pardo que vêm nas encomendas e carimbar com uma árvore de natal feita com uma batata, para fazer um padrão. Ou usar panos: podem ver o que têm de lençóis velhos, guardanapos de pano e usar isso como embrulho usando a técnica do furoshiki. Podem embrulhar uma garrafa de vinho num pano de loiça que seja bonito e é uma prenda extra. Também há coisas que dão para não embrulhar, meter só um laço ou etiqueta ou fazer um postal.

© Joana Guerra Tadeu
© Joana Guerra Tadeu
© Joana Guerra Tadeu

Achas que é possível existir Natal sem desperdício?
Acho que é um arquétipo… não para atingir mas para ter um objectivo que seja ambicioso. Deve ser essa a direção para a qual apontamos. Se é possível ter um Natal realmente bom? Sim! Bom para o planeta, bom para as pessoas, para quem dá e para quem recebe. Tendemos a romantizar o Natal como uma época linda e mágica mas depois sofremos porque queremos dar as melhores prendas e porque queríamos receber uma coisa mas não tivemos coragem de pedir às pessoas… e depois não queremos trocar porque temos vergonha que a pessoa descubra. Depois há pessoas que tem pudor porque não se deve devolver. Também queremos ter uma mesa muito cheia, um banquete para impressionar toda a gente e desperdiça-se comida. As pessoas sofrem no Natal com este tipo de coisas e se fossemos mais honestos sofríamos menos e o Natal era muito melhor, para os envolvidos na festa e também para o planeta e para as pessoas em geral. E assim o Natal já tinha um impacto mais positivo no mundo. Tenho a certeza que isso é possível!

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